terça-feira, 12 de julho de 2011

Curadoria (diálogo com a abordagem curatorial).


Ocupação transitória

Casa é um lugar ocupado, ou seja, espaço coberto e preenchido, temporariamente, por objetos, corpos, afetos e relações.

O museu que, originalmente, foi o lugar de coleção e reunião de objetos, transforma-se na contemporaneidade em espaços de ocupação transitória. Assim, o Instituto Brasileiro de Museus nos apresenta a seguinte definição-proposta:

Os museus são casas, que guardam e apresentam sonhos, sentimentos, pensamentos e intuições, que ganham corpo, através de imagens, cores, sons e formas. Os museus são pontes, portas e janelas, que ligam e desligam mundos, tempos, culturas e pessoas diferentes. Os museus são conceitos e práticas em metamorfose.

O Museu-Casa é o lugar de experiência interpessoal, espaço de convivência com a sensibilidade, de trânsito pelas linhas arquitetônicas e pelas propostas de modificação de seu ambiente. Nesse sentido, Outra relação é uma proposta de interferência, em que nove artistas criam situações variadas para a Pinacoteca do MUBE, a fim de suportar as idéias de relação e afeto, como motivo de interferência no espaço. Transformando o Museu em um lugar doméstico, os artistas interferem, ou melhor, afetam o seu concreto com desejos temporários, seja por meio de objetos, móveis, olhares e acúmulo, seja pela linha, luz, volume e fragilidade.

Luli Guilarducci e William Keri entram na casa com suas coleções. Por meio da reunião de objetos, depositados e organizados, sistematicamente, sobre a bancada de trabalho, Guilarducci propõe a composição cromática como modo de alteração do espaço. Keri explora a escultura, através de sua natureza espacial, empilhando flyers e expondo a alteração do volume à interferência do público.

Liz Magalhães e Karine Guerra trazem os seus espelhos. O espelho de Magalhães apresenta-se ora na árvore, que reflete diretamente o entorno, ora nos móveis e artigos, que fazem ecoar o imaginário feminino. Já no espelho de Karine Guerra, em “Apreensões Contíguas”, o painel de olhos eletrônicos, que atravessa as cápsulas de óleo é apresentado como modo de criar contato (relação) por meio da quebra, repetição e semelhança (unidade).

Luciano Zanette, Carlos Gonzalez e Bertoneto Souza fazem do artefato doméstico de acabamento subvertido, o modo de afetar o espaço por meio da linguagem plástica. As linhas feitas por alongamento, como estratégia de ocupação vertical ou horizontal do ambiente, apresentam-se tanto nas “cercanias” de Zanette, quanto nas “ex-tensões” de Gonzalez ou nas “medidas” espaço-temporais de Bertonetto.

Por fim, Murilo Kammer e Larissa Leão trazem o plano arquitetônico da casa. No caso de Kammer, a construção realiza-se por meio de linhas-vetores, com direções e síntese de forças no espaço. Leão, com suas “arquiteturas efêmeras”, trabalha com a perenidade do sal e a fragilidade de sua conformação em tijolos.

Relação é uma circunstância a que os objetos, corpos e espaços são lançados. É o caráter de algo cuja posição sugere a posição de outro. Afeto, nesse sentido, pode ser entendido como ato de causar situações em si ou no outro. Pensando a arquitetura e o propósito do museu como “práticas em metamorfose”, criar circunstâncias para relação e afeto é compreender como pensamentos e sentimentos podem “ganhar corpo” por meio de artefatos, linhas, cor e volume. Outra relação é um raciocínio plástico a respeito de sensações e intuições no espaço.

Naum Simão de Santana


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